2006, ano velho, ano de empates.
O ano se finda e com o fim dele, a inevitável mania de “prestar” contas aparece.
Fazer o “balanço” de nossas atividades é razoável, o que nunca pensamos é que as atitudes que tomamos nos últimos 365 dias seguramente resvalarão nos próximos, pois os anos como as pessoas não são compartimentos estanques.
Gosto de enfrentar os meus demônios na primeira pessoal do singular, pois a muito fechei as janelas da salvação coletiva.
Para falar da pífia campanha da seleção brasileira na copa do mundo ninguém precisa de mim, há milhares de “Kajurus” idiotas em mesas tão redondas quanto seus abdomens, falando de um esporte que não praticam, como se isso fosse fazer alguma diferença na vida das pessoas.
Fiz diferença na minha vida e na dos “meus” nesse ano, vim disposto a cheirar ou feder, conforme o nariz...
Depois duma derrota acachapante nas eleições, ficou o consolo nos braços de minha filha pequena, que foi o melhor presente que esse ano maluco me trouxe.
Alias, ganhei também a possibilidade de testar amigos e aliados no aço da batalha, a rede passou e dourados destacaram-se em meios a traíras... É a pesca da vida.
2006 entrará na minha vida como um ano de pontos ganhos e outros perdidos, como um ano em que aprendi a diferença entre homens e garotos, enfim como um ano em cujo letreiro aparecia a inscrição de vitórias eletrizantes, mas que possibilitou apenas morno empate, com o consolo de que o campeonato apenas começou...
Máscaras
Lanço-me contra tuas mãos de vidro, cortando-me para te provar que sou gente...E sangro.
Enfrento tua fúria como quem enfrenta um mar revolto a nado.
Tuas ameaças não produzem em mim qualquer receio, já me fizeram todo o mal que podiam e parte disso, sigo te amando.
Minha auto-estima foi sepultada no mesmo dia em que nasceu essa resolução de te seguir...
Por caminhar em tua estrada, paguei o alto preço de perder meus mapas.
Deste-me a bússola quando eu já nem tinha olhos.
Levaste embora as minhas máscaras favoritas...Ficou a do palhaço que só sabia contar histórias tristes...
Colocava uma concha no ouvido e tinha o mar
O tempo não tratou de amenizar as feridas, levou-me o mar e de ruídos me trouxe o encalhe...
As palavras...Ah as palavras...Antes um bradar de emoções, hoje apenas um suspiro.
Onde estão meu crucifixo e tuas promessas de amor?
Não faz mal que a tinta respingue, afinal o que seria do aplauso se não fosse a coragem do primeiro?
Alguém já disse que o estilo é a vingança do que o homem gostaria de ser em relação ao que se é.... A andar por esse trilho nem imagino em que estação vou bater, pois sempre quis ser exatamente o que sou, mas com um saldo bancário mais divertido.
( retirado do velho blog )
Vivencias Suburbanas – parte I – Na Barbearia.
Carolina é só mais pagina em meu livro de memórias...Moça interiorana que vinha toda sexta recolher o jornal, fazer a faxina e borbulhar meus hormônios juvenis.
Ela era de um tempo em que na periferia se podia ter empregada, desde que sua casa tivesse as três refeições diárias...
Religiosa, usava saias longas e limpava o salão de barbeiro de meu avô...nos mais dos dias quem varria era o velho ou algum neto desavisado que ficasse por lá muito tempo.
Cresci ouvindo relatos de aventuras danadas...velhos safados que longe da família reuniam-se no salão de “Mestre Ângelo” para cortar o cabelo e fazer a barba...São Miguel Paulista, navalha cantando..velhas revistas que eu folheava no afã de ver as pernas de Vera Fischer ou qualquer outra beldade da época.
Sexta-feira era a redenção, lá vinha Carolina com sua saia longa...seu perfume de lavanda “a paz do senhor” e seu rebolado semanalmente esperado.
Foi numa quinta que tive minha primeira experiência sexual efetiva...justiça com as próprias mãos..e como no poema de Drumond...não foi Carolina a homenageada..mas Inês, que nem entrava na história.
Fogo amigo
Definitivamente a mais odienta das “invenções” humana é o tal do “fogo amigo”.
Como se fogo - matéria prima das profundezas dos infernos - pudesse lá ser amigo de alguém...mas vamos que seja...
Pessoas que se juntam com algum propósito, seja qual for, deveriam remar juntas, mas perdem seu tempo e energia para criticar o companheiro de barco, talvez na esperança de melhorar o desempenho coletivo, talvez só no afã de auto-afirmar-se na miséria e limitação alheia ou ainda para impressionar o “capitão” do barco.. ....vai entender...
A expressão “fogo amigo” serve para designar os feridos que por estarem na primeira fila de combate, recebiam tiros nas costas provenientes de balas da fila posterior disparadas cedo demais, em ato falho.
Hoje as “guerras” são de outra natureza, e muitas vezes o “fogo amigo” vem em atitudes cotidianas em nosso ambiente de trabalho...ou pior...naquele domingo a tarde em que alguém próximo faz um comentário que desperta em nós a compreensão com o ditador Stalin, que mandou até familiares para campos de concentração na Sibéria...
Isabella, bem vinda entre nós.
Minha filha, gostaria de poder dizer isso para você agora, mas tentarei primeiro “filtrar” alguns sentimentos, pois não quero sobrecarregá-la nem tampouco ser um pai fracote que ao invés de instruir, destrói.
Ao olhar para seu rostinho ontem, na maternidade, senti que definitivamente a vida é nada, e que somos apenas pequenos sopros nas mãos de Deus, sei que não conseguirei traduzir em palavras, nem explicar aos meus olhos o porque de lagrimas traiçoeiras que atalham esse assunto...
Apesar de eu não ser o melhor amigo do espelho, te achei tão linda e parecida comigo (vai entender... talvez é pq. eu fique melhor na versão feminina!)
Ao deixar você e a mamãe, sozinhas no quarto do hospital, tive vontade de raptá-la para longe de toda maldade e podridão que descobri nesses últimos 32 anos, mas seria antinatural e egoísta de minha parte, por enquanto vou fazer o papel de Dragão na frente do castelo...
Boa noite minha Princesa.
(escrito as 23:50 do dia 18/04/06)
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